Em minha opinião, o
conceito de identidade psicossomática
proposto por Wilhelm Reich é genial.
Sabemos que a cultura
ocidental é marcada por um dualismo que separa o corpo e a mente. Na atualidade esse dualismo implica
na existência de pelo menos três tendências*:
- Biologização – Cada vez mais áreas médicas explicam os fenômenos psíquicos como fruto da bioquímica cerebral e da genética, ou seja, fazem uma “biologização” dos aspectos psíquicos do ser humano;
- Psicologização – Por outro lado, algumas áreas da psicologia explicam fenômenos biológicos a partir de símbolos, mitos, metáforas e modelos psicológicos, portanto, fazendo uma “psicologização” de aspectos orgânicos do ser humano;
- Espiritualização – Por fim, diante de certos fenômenos que transcendem o conhecimento científico tradicional (por exemplo, as curas espirituais, milagres, etc.), surge um movimento de “espiritualização” tanto do psíquico quanto do somático.
No entanto, o conceito
de unidade psicossomática proposto por Reich não se enquadra em nenhuma destas
três tendências, pois Reich não busca psicologizar o corpo, nem biologizar a
psique e muito menos espiritualizar ambos.
Para entender como
Reich conceitua a unidade psicossomática, é preciso entender antes o que é a energia orgone. Para Reich, a energia
orgone é um tipo específico de energia que está presente em todo o universo.
Fique claro que não se trata de uma energia espiritual, de ordem mística.
Reich entendia essa energia como sendo de natureza física e que podia ter sua
existência e características comprovadas por experimentos laboratoriais.
A unidade
psicossomática proposta por Reich considera que o corpo biológico e o psiquismo
são dois aspectos equivalentes da manifestação de um terceiro elemento, a
saber, a energia orgone presente no corpo humano vivo. Portanto, a unidade
psicossomática de Reich consiste numa energetização*
tanto do corpo quanto do psiquismo.
Vamos entender melhor essa questão.
Para Reich, psique e soma não são duas realidades separadas, mas apenas dois pontos de vistas básicos pelos quais se aborda uma única realidade de natureza energética. Além disso, estes dois pontos de vista são funcionalmente equivalentes. Por equivalência funcional entenda-se que uma mesma função ou disfunção energética pode ser abordada tanto de um ponto de vista somático quanto de um ponto de vista psíquico equivalente ao somático.
Esse arranjo entre os
conceitos de psique, soma e energia dá origem ao conceito de “identidade e antítese
psicossomática”. Ao mesmo tempo em que psique e soma funcionam de modo equivalente,
ou seja, que eles possuem uma identidade funcional, eles também são aspectos antitéticos, pois são as duas
formas distintas básicas de manifestação da unidade psicossomática.
Não se engane, no
entanto, achando que este conceito é simples. Considerá-lo corretamente traz
algumas dificuldades insuspeitas, pois frequentemente tendemos a pensar e agir
de acordo com a dicotomia corpo e mente típica de nossa sociedade.
Por exemplo, ao
considerarmos o conceito reichiano da identidade funcional básica entre psique
e soma, não faz sentido dizer que distúrbios emocionais “causam” doenças
físicas, pois não existe uma relação causal entre os dois aspectos que são funcionalmente
equivalentes. Assim, de acordo com o conceito reichiano, o que existem são
distúrbios energéticos que apresentam um aspecto emocional e um aspecto
somático, sendo estes dois aspectos equivalente entre si, ainda que perceba-se ou
aborde-se um aspecto ou outro em determinados momentos.
Vamos considerar o
exemplo de um empregado que frequentemente “engole sapos” do seu chefe. Após
um tempo esse empregado tem diagnosticada uma gastrite. Num primeiro momento podemos pensar que a doença estomacal do empregado foi consequência (resultado)
dos diversos "sapos engolidos". No entanto, o entendimento reichiano da questão é que desde o início destas ocorrências está sendo criado um bloqueio do fluxo da energia
orgone pelo organismo, sendo que este bloqueio apresenta tanto aspectos emocionais quanto
corporais. Com a perpetuação e com o agravamento do
bloqueio energético ao longo do tempo, tanto seus aspectos psíquicos quanto somáticos tornam-se mais evidentes,
a ponto de ser possível diagnosticar a gastrite (sendo este apenas o ponto de
vista somático do problema energético).
Quando Reich se referia
à energia orgone especificamente presente no organismo vivo, ele a tratava como
energia orgone organísmica, ou ainda
pelo termo bioenergia. A palavra
bioenergia, no entanto, não pode ser entendida simplesmente como energia biológica, num
sentido meramente corporal. Ela deve ser entendida como a energia da vida,
ou seja, num sentido mais amplo e que considera tanto as características
biológicas quanto as psíquicas do ser vivo. Uma alternativa seria usar o termo biopsicoenergia de modo a ressaltar
que esta energia única pode ser abordada pelos seus pontos de vista biológico e
psíquico, mas convenhamos, fica até difícil escrever.
* Vide o artigo "A PSICOSSOMÁTICA REICHINANA" de Artur Thiago Scarpato, publicado pela Revista Catharsis n. 28 Nov-dez 1999.
* Vide o artigo "A PSICOSSOMÁTICA REICHINANA" de Artur Thiago Scarpato, publicado pela Revista Catharsis n. 28 Nov-dez 1999.
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