quarta-feira, 8 de abril de 2015

O Papel Social na Teoria Reichiana – Parte 1

De acordo com Reich, muitos psicanalistas de sua época tentavam explicar a cultura e a história humana com base nas pulsões[1] inatas do ser humano. Estes psicanalistas partiam da premissa que fundamentalmente são as pulsões com as quais o ser humano nasce que determinam a dinâmica e a organização social. Para eles, entender os valores e o caráter humano permitiria compreender o mundo. Portanto, como a sociedade também apresenta aspectos doentios e destrutivos, isso se deveria ao fato de que o ser humano já nasce com pulsões doentias e destrutivas dentro de si e que estas pulsões seriam as responsáveis pela sociedade ser como é. O mais eminente defensor desta linha de pensamento foi Freud, o qual postulou a chamada “pulsão de morte”, segundo a qual o ser humano já nasceria com uma propensão que o impeliria, em última instância, à própria destruição.

Para Reich, essa ideia não corresponde à realidade.

Reich entende que o ser humano realmente possui pulsões inatas, mas considera que elas sofrem modificações pela sociedade e a partir dessa transformação desempenham um papel histórico. Em outras palavras, o que Reich defende é que o ser humano nasce com certas pulsões, as quais podemos rotular, de modo geral, como “pulsões de vida”, mas por ser criado dentro de determinada sociedade suas pulsões são transformadas de acordo com imposições sociais que atuam, em regra, no sentido de perpetuar a sociedade tal como ela é. Para Reich, seria nessa transformação socialmente imposta que surgiriam as pulsões doentias e destrutivas no ser humano.
 
Essa discussão pode parecer muito teórica, mas ela é de importância fundamental para toda a abordagem reichiana. Partir da ideia de que as pessoas já nascem com pulsões doentias inerentes à condição humana significa acreditar que a sociedade está irremediavelmente fadada a ser o que é. Em outras palavras, isso significa defender que o ser humano é inerentemente doentio, consequentemente a sociedade sempre será doentia e infelizmente não há muito que fazer a respeito. Por outro lado, quando Reich reconhece o papel da sociedade como determinante da conduta humana, ele cria a esperança de um mundo melhor, mas também atribui ao próprio ser humano a responsabilidade pela mudança social.

[1] Uma pulsão pode ser simplificadamente considerada como um impulso energético gerado por forças internas ao indivíduo, de modo geral inconscientes e que o compelem e direcionam a determinados comportamentos. Por isso a pulsão também pode ser chamada de impulso.

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